sábado, 5 de maio de 2007

Análise de Gênesis Capítulo 3

A passagem de Gn 3 relata a queda do homem, como espécie, e mostra como o pecado passa a fazer parte da natureza humana.
Há consenso entre a maioria dos escritores, em que a serpente, responsável por induzir a mulher ao erro, foi um instrumento utilizado por Satanás. A escolha pela serpente, certamente está ligada ao comportamento da mesma na natureza, como o próprio texto diz, de sagacidade e astúcia, servindo muito bem aos propósitos malévolos do diabo.
Mesquita, associa a possível beleza física da serpente, e seu comportamento astuto, ao fato da mulher ter cedido tão facilmente aos seus oferecimentos. Todavia o texto nos leva a entender, que o que realmente fez com que a mulher cedesse à desobediência, foi a descoberta de que a árvore era boa, bonita e daria conhecimento do bem e do mal (verso 6), prerrogativas até então divinas. Já nesse ponto podemos tirar uma lição sobre o pecado, e como ele se apresenta a nós.
Não podemos negar que o pecado sempre se mostra ao homem bonito, e portanto sedutor. Foi isso que chamou a atenção de Eva. O mundo hoje, da mesma forma que no princípio, continua a nos seduzir e a nos convidar a provar de suas “delícias”, que embora passageiras, são boas, bonitas e porque não dizer, nos abrem o conhecimento, afastando-nos da “caretice” de sermos cristãos, onde a falácia de que nada pode ainda predomina na mente das pessoas. Os métodos utilizados pelo diabo continuam os mesmos, apenas contextualizados à nossa época.
Um outro ponto a ser discutido foi a incredulidade de Eva ante as ordens de Deus. Conforme escreve Hoff, a mulher só cedeu ao pecado porque deixou de crer no que Deus havia dito e passou a crer nas palavras do diabo. Deus havia dado um mandamento ao homem, e o texto nos mostra que ou o homem repassou esse mandamento à mulher ou Deus pessoalmente o fez, porque quando questionada pelo diabo sobre a proibição, Eva mostrou ter conhecimento claro sobre o assunto. Mas a astúcia do inimigo fez com que ela entendesse que não era bem assim que Deus queria dizer, amenizando portanto a força do mandamento. O diabo sempre procura amenizar as ordens de Deus, tentando nos mostrar que podemos ser fiéis, mesmo que não obedeçamos a Deus de uma forma completa e verdadeira. A sua intenção na verdade é distorcer a Palavra de Deus. Foi desse modo que tentou Jesus no deserto. É assim que continua a nos tentar. E quando cedemos a essas tentações estamos na verdade tirando o foco da nossa fé. Deixamos de crer em Deus e na Bíblia e passamos a crer nas mentiras do diabo. Esse é o início de uma vida de pecado. Primeiro olhamos o pecado e ele nos atrai. Depois acreditamos que podemos prová-lo sem nos contaminar.
Law nos orienta e nos concientiza acerca do poder do diabo e de como devemos nos proteger. Não gostamos de pensar muito sobre o nosso inimigo, e dessa forma, às vezes, deixamos que ele aja livre e abertamente. Preferimos pensar no mal como uma força que não exerce muita influência sobre nós, ao invés de encará-lo como uma pessoa que está constantemente tentando nos derrubar. Precisamos obedecer a Palavra de Deus que nos exorta a resisitir ao diabo, que diuturnamente tenta nos tragar. Argumenta ainda Law, que o diabo é o príncipe deste mundo, deus deste século, e líder de exércitos incontáveis que estão a seus serviços continuamente com o único propósito de nos derrotar, nós que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Por tudo isso resta-nos vestir toda a armadura de Deus para que possamos resisitir no dia mau.
As consequência que o pecado trouxe para a humanidade foram funestas. A primeira consequência observada foi a ruptura da comunhão com Deus desfrutada pelo homem antes de pecar. Logo que seus olhos foram abertos, em decorrência da desobediência, verificaram que estavam nus, porque o pecado os fez sentirem-se envergonhados. E assim que notaram a aproximação de Deus tiveram medo. O pecado rompeu a comunhão do homem com Deus. Um abismo se abriu e o homem teve de ser expulso do jardim que Deus criara para ele.
A primeira demonstração prática do pecado na vida do casal foi a tentativa de escapar da culpa. Quando Deus pergunta ao homem se ele havia comido da árvore que Ele havia proibido, o homem logo trata de transferir a culpa à mulher, e esta por sua vez mostrando um aprendizado demasiadamente rápido, transfere a culpa para a serpente que a havia enganado. A pessoa que vive em pecado sempre tenta culpar alguém por sua vida longe da comunhão do Pai. Às vezes culpando a igreja por falta de apoio, às vezes a família que não o compreendeu, enfim, não faltam desculpas. Mas a Bíblia é clara quando afirma que cada um dará conta de si mesmo a Deus por toda obra praticada. Não há desculpas para o pecado. Temos sim, de nos convencer que somos pecadores e de que precisamos da graça de Deus.
Além da separação do homem e de Deus, o pecado também trouxe mais consequências para todos os envolvidos no episódio. A serpente foi amaldiçoada por Deus, que a condicionou a viver de uma forma rastejante por toda a sua existência, e a fez inimiga mortal do homem e da mulher. A mulher por sua vez, teria as suas dores de parto multiplicada. Entendo aqui que a mulher antes do pecado sofreria dores ao dar à luz, mas com certeza essas dores seriam bem reduzidas comparadas ao que é hoje. Isso porque Deus promete multiplicar as suas dores. Ora, não se pode multiplicar o que não existe. Além disso, o desejo da mulher seria para seu marido e esse a dominaria. Ao homem Deus promete uma vida dura de trabalho. Trabalho esse que não ofereceria realização e lhe traria muitas amarguras.
Deus expulsa o casal do jardim e coloca querubins para guardarem o caminho da árvore da vida, impedindo assim que o homem comesse da mesma e vivesse para sempre, já que agora tinha conhecimento do bem e do mal. Se isso acontecesse certamente traria consequências ainda piores, porque o homem teria vida eterna numa condição de pecado e desobediência.
Ao amaldiçoar a serpente Deus lhe dá o direito de ferir o calcanhar da linhagem da mulher, e a esta o direito de esmagar a cabeça da serpente. Podemos inferir duas intrepretações daí. Uma diz respeito à relação que existe hoje entre o homem e as serpentes em geral, certamente uma relação de eterna rivalidade. Todavia, desde tempos antigos, os cristãos interpretam essa passagem como um proto-evangelho, enxergando na linhagem da mulher o próprio Jesus e na serpente o diabo. Jesus então, na cruz do calvário, esmaga a cabeça da serpente e novamente reestabelece a comunhão do homem com Deus que havia sido quebrada no Éden.
Mediante essa interpretação, fica claro o papel de cada cristão hoje na proclamação do evangelho. Sabemos que pelo pecado do primeiro casal, a relação de Deus com a raça humana foi rompida. Também é sabido que somente por intermédio de Cristo essa relação volta a ser efetivada. Antes de morrer, Jesus bradou de cima da cruz: Está consumado ! A obra de redenção do homem estava completa, não faltava mais nada, tudo havia sido feito de uma forma perfeita. Logo após o pecado de Adão e Eva, Deus pela sua infinita misericórdia, prepara túnicas de pele para os dois e os cobre. Deus começa a preparar um caminho para a regeneração do homem. Mas a obra só é finda, quando o cordeiro de Deus se entrega vicariamente, e morre pelos nossos pecados.
A nossa tarefa como cristãos, remidos e lavados pelo sangue de Jesus, é proclamar essa verdade a toda a criatura. É uma mensagem simples, mas é uma verdade profunda. O homem sem Cristo não passa de uma criatura de Deus, condenado à morte eterna. Cristo é a ponte entre Deus e o homem. No princípio, vemos que o homem foi incapaz de escolher até mesmo o que vestir. Deus precisou ajudá-lo nessa tarefa. Hoje, da mesma forma, o homem por si só é incapaz de se salvar. Seus méritos nada valem para isto. Não há o que façamos que nos possa salvar de nosso destino cruel sem Deus. Não há boa obra ou vida abnegada que nos faça chegar até Deus. A única solução para o pecador é Cristo. É crer nele como único e suficiente salvador.
Essa mensagem percorreu toda a história da igreja cristã e continua sendo a nossa mensagem. É nisso que os homens devem crer e é isso que nós
devemos proclamar. Que essa mensagem maravilhosa não se aparte de nossos lábios e que seja o nosso respirar durante toda a nossa vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia de Jerusalém. Traduzido para o português dos originais. São Paulo: Paulus, 2004.
Hoff, P. O Pentateuco. Tradução de Luis Aparecido Caruso. Miami: Vida, 1983.
Kidner, D. Gênesis Introdução e Comentário. Traduzido pela Inter – Varsity Press. Londres: Mundo Cristão, 1991.
Law, H. Cristo em Gênesis. Traduzido pela Editora Leitor Cristão. São José dos Campos: Missão Evangélica Literária, 1994.
Mesquita, A. N. Estudos no Livro de Gênesis. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1943.

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