sábado, 21 de julho de 2007

Tão Incomum !

Este título me veio à mente quando ouvia uma música do Rogério Reis intitulada “Incomum”. Confesso que a primeira vez que vi o clip dessa música me emocionei e depois disso já o vi várias vezes. Hoje, comecei a ouvir essa música e deixei na tela do computador uma pintura que tenho do calvário, onde mostra a cruz de Cristo no centro, uma parte das outras duas cruzes e, ao fundo, um crepúsculo enegrecido pelo terror daquele momento de agonia do Senhor. Novamente me emocionei e pensei em escrever sobre esse tema, tão incomum.
O sacrifício de Jesus não foi pelo mundo e suas belezas, mesmo porque todas essas coisas irão passar, como o próprio Senhor Jesus declara em sua Palavra. Tão pouco foi um acidente do destino. Sua morte estava predita desde a fundação do mundo. O resgate do ser-humano já estava preescrito na soberania de Deus. Cada detalhe da história foi escrito meticulosamente para que no tempo certo, o sacrifício maior e único, fosse realizado, aquele que substituiria de uma vez por todas, todos os sacrifícios humanos que jamais agradaram a Deus, e que eram apenas uma sombra do que realmente Deus planejara.
Incomum foi o modo como Cristo veio ao mundo, de uma virgem, concebido pelo Espírito Santo, de uma forma milaculosa e jamais vista, Deus se faz homem. Experimenta a carne, o “ser humano”, com todas as suas tentações, mas ao contrário de nós, vence o mundo, imaculado, sem pecar, assim como veio.
Incomum eram seus milagres. A parcela esquecida do povo, era agora alvo das misericórdias de Deus. Os marginalizados e discriminados pela alta cúpula da religião, estavam agora sob o olhar do Cristo. Aleijados, cegos, doentes terminais, mulheres, todos aqueles que para os judeus foram vítimas da maldição divina, eram acolhidos por Jesus. Pecadores, publicanos, gente odiada pelo “clero”, tinha a honra do convívio de Jesus em suas festas, em suas casas. Jesus se alegrava com eles, comia com eles e a eles era pregado o reino dos céus. Como era incomum esse tipo de atitude para os judeus da época, arraigados em suas tradições egoístas, tradições estas que os cegaram, e os distanciaram da privilegiada missão de levar o conhecimento de Deus a todas as nações. Triste para nós, que ainda hoje, achamos incomum atitudes como essas que Jesus demonstrou. Achamos estranho quando vemos uma pesoa que devolve o dinheiro que achou no lixo ao seu verdadeiro dono. Achamos estranho quando vemos um pai que perdoa o bandido que assassinou seu filho, que dá de comer ao vizinho que só sabe ofendê-lo e maldizê-lo. Depois de tanto tempo, ainda nos causa estranheza ações de misericórdia. As obras que Jesus deixou como exemplo ainda nos são incomuns.
Incomum era o modo como Jesus amava. Os judeus amavam seus irmãos, pessoas que lhes eram boas e partilhavam da mesma fé e modo de pensar. Jesus amava o inimigo. Os judeus odiavam os samaritanos, mas Jesus dava a eles água da vida e mostrava a eles que a salvação era universal. Os judeus discriminavam a mulher e a tratavam como alguém sem alma, indigna do reino. Jesus amava as mulheres como pessoas valiosas, tanto quanto os homens. Jesus falava com elas, as curava, deixava que elas o tocassem como forma de adoração, permitia que elas o sustentassem financeiramente como forma de agradecimento e louvor. Jesus amava sem favoritismo, sem olhar a aparência ou a classe social. Jesus amava o escriba e o ladrão, amava a mulher e o sacerdote, a criança e o ancião. Jesus amava porque essa era sua essência. Não poderia ser de outra maneira seu amor, uma amor incondicional e perfeito.
A religião de Jesus era incomun. A “elite” religiosa da época (escribas, fariseus, saduceus) primava pela tradição e pela lei, mais ainda pela tradição. Zelosos pelo decálogo, não compreendiam a abrangência do mesmo no âmbito de sua aplicação prática. Jesus vem demonstrar mais do que a obediência à lei, antes, vem dar à lei uma denotação de amor e de misericórdia. Para Jesus, o pecado não se resumia em cobiçar a mulher alheia, mas o simples fato de pensar nela já era suficiente para desagradar a Deus. Para Jesus, o sábado não era somente um dia de descanço, de ócio, antes, era um dia para demonstrar amor pelo próximo, de ajudar o necessitado, de alimentar o faminto. A religião de Jesus não aceitava o fato de mercenários comercializarem as coisas sagradas dentro do templo. Às custas da exploração dos menos favorecidos, ladrões se enriqueciam vendendo objetos de culto que deveriam ser sagrados e separados para a adoração e para o sacrifício. A religião de Jesus não era somente dos judeus, mas era para todo o mundo, universal. A religião de Jesus bateu de frente com a religião judaica, que estava acomodada, e que havia acomodado a lei de acordo com suas necessidades mesquinhas a fim de favorecer a minoria “clerical”. Estava fácil para os judeus da época que viviam uma religião egoísta, sem comprometimento verdadeiro, tapando o sol com a peneira, mostrando uma falsa moralidade em nome de Deus.
Incomum foi o sacrifício de Jesus na cruz do calvário. Para os judeus, conhecedores da lei, a morte no madeiro significava maldição da parte de Deus. Ora, como pois o Filho de Deus poderia se deixar crucificar ? Paulo escrevendo aos gálatas explica: “ Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;”. Todavia os judeus não aceitaram essa realidade. John Stott em seu livro “A Cruz de Cristo” põe da seguinte maneira: “O problema do perdão é constituído pela colisão inevitável entre a perfeição divina e a rebeldia humana, entre Deus como Ele é, e nós como somos”. Deus é perfeito e precisava de um sacrifício perfeito. A morte de Cristo precisava ser incomum.
Por mais incomum que nos pareça ainda hoje o sacrifício vicário de Jesus, a graça de Deus e sua perfeita justiça exigiram que assim fosse. Como pecadores que somos, às vezes saímos do alvo, nos desviamos da vontade de Deus para nossas vidas. Importa que reconheçamos nossos pecados (palavra fora de moda hoje em dia) e nos voltemos para aquele que nos ama com amor sem igual, incomparável amor, simplesmente incomum.
Para terminar gostaria de colocar o refrão da música que me inspirou esse texto, ei-lo: “Tão incomum, que o autor do universo aceitasse morrer, se entregar e sofrer, mesmo que pra salvar só um de nós, tão incomum ! E ao lembrar que na cruz pensou em mim, acho tudo isso assim tão incomum !”
Fábio Adriano Cruvinel Machado
Valinhos, 18 de julho de 2007

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