domingo, 19 de agosto de 2007

Tão somente pela graça

Não consigo entender Pai, porque ainda me aceitas, miserável pecador que sou.
Não consigo entender porque ainda continuas me dando chance, vez após vez, dia após dia, sem que eu mereça, ás vezes mesmo sem pedir.
Olho para minha vida e só vejo fraqueza, podridão e medo. Um vaso quebrado a espera de um remendo.
Todavia, tu vens como um oleiro, e em vez de remendar-me, me molda de novo, e me faz novo, como se eu acabara de nascer.
Sinto raiva de mim mesmo por todas as vezes em que te magoei, te ofendi e te neguei, mesmo que fosse só interiormente.
Não consigo entender Pai, o teu amor inconcebível, incompreensível, inatingível, que atinge a mais vil criatura, fazendo-a filho, e trazendo-a ao aconchego do lar.
Sinto-me desesperado Senhor, quando olho para minha vida, ofuscada pela tua santidade, e nesses momentos sinto que não vou conseguir, que os teus caminhos são demais para mim, e chego a sentir até que não sou digno de Ti.
Nesses momentos Senhor, em que as palavras não resolvem, e a mais bela canção se perde no vácuo dos meus pensamentos, procuro uma voz Pai, mansa e suave que possa me confortar, que possa me chamar outra vez de filho.
Nesses momentos Pai, escuto tua voz, quase inaldível, porém inconfundível, voz de amor, voz de ternura, voz que acalma a tempestade, mas também que tranquiliza meu coração.
Ah, Senhor ! Nessas horas me sinto desmoronar, lágrimas começam a descer pela face e o coração parece querer saltar dentro do peito. Não teria sido a mesma sensação vivida pelo filho pródigo ? Sensação de alívio, paz, aquela que ele não encontrou no mundo.
Jamais entenderei Senhor, seu chamado paterno. Jamais entenderei meu Deus, porque me queres tanto assim.
E em momentos como esse, onde as respostas fogem, só uma palavra me vem á mente, “graça”.
Foi de graça, foi por graça, que um dia, ainda informe, me escolhestes. Não que eu fosse melhor que qualquer um, mas simplesmente porque não poderia ser diferente, mesmo porque escolhestes a todos.
De uma forma incrível, mesmo sabendo todos os pecados que eu cometeria, me amou, com amor sem igual, com amor eternal.
E surpreendentemente, cada vez que me perdoas, não se lembra dos pecados que eu cometi, e não leva em conta os que ainda eu vou cometer, simplesmente perdoa, esquece, e me olha sob a sombra da cruz.
Por mais que eu dissesse Senhor, jamais explicaria tão grande amor, sempre faltaria algo, sempre soaria vazio. Porque não se explica o infinito, o perfeito, apenas se cre.
Não me resta nada então Senhor, senão descansar em Ti, Autor da vida, Senhor do meu destino.
Sob teu olhar gracioso, mais uma vez me levanto Senhor, na convicção de que serei diferente, na fé de que posso ser útil, um vaso de honra, agora remodelado pelo sumo-oleiro.
Toma a minha vida Senhor, reconstituída, "re-generada" por teu poder. Continuo não tendo nada, não sendo nada, mas sob tua força sou mais que vencedor.
Aqui está Senhor, um vaso vazio, mas pronto para ser cheio. E que esse conteúdo, que só pode te conter, transborde ao ponto de atingir a outros. Que as minhas cicatrizes, deixadas pelo pecado, sirvam pelo menos de exemplo. Que a minha vida, que só é vida por causa tua, seja símbolo de transformação, seja marco do teu amor. E se apenas uma vida se salvar, vendo em mim a tua graça, já terá sido mais que mereço, mais que eu poderia imaginar.
E que eu possa, a exemplo de Paulo nos derradeiros de sua jornada, dizer da minha humilde trajetória: - Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé ! Tão somente pela graça.

Fábio Adriano Cruvinel Machado
Belleville, 19 de agosto de 2007

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