segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O Cristianismo em um Contexto Pós-Moderno

Vivemos em dias perigosos para o cristianismo. Dias em que inúmeras questões estão sendo levantadas nos meios acadêmicos, entre pessoas de influência, respeitadas por sua eloqüência e conhecimento. Essas questões começam a inquietar muitas pessoas, porque mexem em algumas bases nas quais estamos apoiados e nas quais apoiamos nossa fé. Para enterdermos melhor esse tema vamos à Palavra de Deus.
O livro de Juízes termina com uma frase bastante perturbadora, diz assim: Juízes 21:25 “Naqueles dias não havia rei em Israel, e cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos”.
O livro de I Samuel começa exatamente onde termina o livro dos Juízes. Na verdade Samuel é a personagem chave do elo entre a era dos juízes e a monarquia. Somente quando começamos a ler Samuel, podemos entender claramente qual o significado do último versículo do livro de juízes. Israel passava por uma série crise política e religiosa.
A crise política é claramente observada no verso chave. Cada um fazia o que bem lhe parecia aos seus olhos. A impressão que dá é de que não havia lei. O povo vivia uma espécie de anarquismo, onde vale tudo, onde tudo é possível, onde não existe certo ou errado. Provavelmente prevalecia a lei do mais forte, do mais poderoso.
A crise religiosa só pode ser entendida quando lemos I Samuel. Vejamos o que diz o texto.
No capítulo 2 e verso 12 lemos que os filhos de Eli eram filhos de belial, em outra versão diz que eram vagabundos, isto é, sem valor, imprestáveis, obreiros degenerados na casa de Deus. Dos versos 13 ao 17 lemos que aqueles homens desprezavam a oferta do Senhor. Ao invés de pegarem apenas o que pertencia por direito ao sacerdote (Lv 7:29-36), constrangiam e ameaçavam o povo a que lhes dessem o melhor do sacrifício, antes mesmo de queimarem o sacrifício ao Senhor.
Além de desprezarem as ofertas ao Senhor, os filhos de Eli cometiam imoralidade sexual à entrada da tenda da reunião. Eli sabia disso por intermédio do povo, mas praticamente nada fez, além de alertá-los a respeito da justiça de Deus. Filhos desobedientes e pais omissos.
Tudo isso traduz claramente o que se passava em Israel, explica o que significava a expressão : “fazia o que bem lhes parecia aos seus olhos”. Não havia limites, não havia temor, a lei de Deus estava longe de suas vidas. Os poucos rituais que ocorriam eram apenas ritos, imperfeitos, que não passavam de uma obrigação legalista. O coração do povo estava longe de Deus, vivendo cada um à sua própria maneira.
Eu precisava fazer essa introdução para poder mostrar como estamos vivendo dias semelhantes.
Estamos na era chamada pós-modernismo, embora alguns estudiosos questionem essa afirmação.
O pós-modernismo não é uma organização ou um movimento sólido com sede e fundador, mas é um espírito, e espírito no sentido de idéia globalizada, uma maneira de ver a realidade, um estilo de vida sem parâmetros, sem leis, sem padrões. Aliás, padrão é uma palavra inexistente no mundo pós-moderno.
O mundo se encontra num conflito existencial jamais visto. A tecnologia e a ciência que prometiam ser a solução para os problemas da humanidade no início da modernidade, se mostram agora frágeis e impotentes. O lixo se acumula cada dia mais nas grandes metrópoles, a fome ainda prevalece nos países subdesenvolvidos, o desemprego ainda é grande, a religião está cada dia mais contaminada pelo modo de vida capitalista. O modernismo não deu conta do recado, e agora urge uma pergunta inevitável, o que fizemos? E o pior, o que vamos fazer?
No desespero de encontrar uma solução, a primeira coisa que se vêm à mente é que os padrões antes estabelecidos não podem mais ser aceitos. Tudo o que se acreditava certo e absoluto não faz mais sentido. Leis que antes eram inquestionáveis são colocadas agora em dúvida e postas à prova.
Japiassu diz o seguinte: “o campo epistemológico, o sujeito pós-moderno desconfia dos “grandes sistemas teóricos” ou da “grande idéia”, que, no fundo é de inspiração religiosa – visto que são as religiões que sempre prometem a felicidade (uma “idade de ouro”) num tempo futuro. As religiões vivem deste tipo de propaganda enganosa”. Esse é o pensamento pós-moderno. Novamente a religião é colocada na parede, e o que é pior, designada como culpada do caos do pensamento humano.
Raymundo de Lima, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo, fala o seguinte a respeito do pensamento pós-moderno: “Nossa sociedade é regida mais do que pela ânsia de “espetáculo”; existe a ânsia de prazer a qualquer preço. O superego pós-moderno “tudo vale” e “tudo deve porque pode”. Todos se sentem na obrigação de se divertir, de “curtir a vida adoidado” e de “trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social”, não importando os limites de si próprio e dos outros”.
Os cristãos já enfrentaram muitas afrontas e perseguições, mas o pós-modernismo traz consigo uma arma muito mais perigosa, porque é sutil, não causa espetáculos e nem é violenta, pelo menos não no sentido denotativo. Essa arma é a própria consciência pós-moderna, aquela que todos os fundamentos estão colocados ao chão, não nos servem mais.
A base do cristianismo contém fundamentos muito sólidos. Esses fundamentos estão inseridos na Bíblia sagrada. Nela encontramos tudo que necessitamos para sermos bons cristãos. Quando voltamos para o pensamento pós-modernos, ou quando somos influenciados por ele, começamos a duvidar e a desacreditar dessas bases. A Bíblia passa de um discurso absoluto (absoluto no sentido da revelação) para um sentido relativo. Começamos a dizer que aquilo que pensávamos que era, não é bem assim, e assim sempre damos um jeitinho de acomodarmos a Palavra de Deus aos nossos interesses. Adaptamos a Bíblia à nossa teologia particular, ao invés de sujeitarmos nossa teologia à autoridade bíblica.
A crise em que vivemos é tão semelhante à vivida pelo povo judeu na época de Samuel, que não temos muitas dificuldades para contextualizar praticamente todo o texto que lemos. Em razão dessa falta de base, de alicerce onde se firmar, a cada dia igrejas e mais igrejas são formadas, ora pela ânsia de poder e bens materiais, ora pela idéia de ter encontrado uma “nova revelação”. E a culpa não está somente naquele que subjuga essas pessoas, mas também naqueles que se deixam subjugar-se, movidos exatamente por essa falta de identidade, pela ausência de um encontro real com Jesus. Podemos ver claramente essa verdade em II Tm 4:3-4 que diz assim: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”. Só existem mercenários do evangelho, porque do outro lado existem pessoas sedentas pelas promessas feitas pelos tais. De um lado pessoas ansiosas por bênçãos materiais e felicidade plena nessa vida, de outro lado falsos pastores ansiosos pelo dinheiro desse povo. É uma troca de favores que não tem nada a ver com evangelho, está longe do mandamento de Jesus que nos manda dia após dia levarmos nossa cruz, e seguí-lo.
No salmo de número 11 no verso 3 encontramos o seguinte alerta para os nosso dias: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?”. Nossos fundamentos devem estar bem fixados e inabaláveis, eles devem estar na Palavra de Deus. Nosso ponto de partida ainda é a cruz de Cristo. O que Cristo fez por nós na cruz do calvário não é e nunca será relativo. Não depende de você crer ou não, independe da sua vontade. O sacrifício de Cristo é absolutamente perfeito, é para toda a humanidade, e não está condicionado a nenhum pensamento humano, não está sujeito a nenhuma nova tendência filosófica.
Há uma música do Gérson Borges e do Isaías de Oliveira que trata um pouco das conseqüências deixadas pela pressão exercida pelo capitalismo e agora acentuada pelo contexto pós-moderno, a letra é assim:

Sem lenço, sem documento, sem pastor
Ai como a coisa vai ficando alienada
E há tanto perigo na beira da estrada
Da nossa vida que tem pressa em viver
O que fazer?

Sem lenço, sem documento, sem pastor
A vida da gente vai se transformando no que for
Ausência, saudade, distância
Do belo, do riso e da flor
Por isso é preciso voltar
Para o Primeiro Amor

Quando Deus
Era bem mais que uma palavra
Oração atravessava a madrugada
E ajudar, oferecer a nossa mão
Era um prazer
Ser cristão rimava com partir o pão
Mas o deus ciência-tecnologia
e Mamom nos seduzindo noite e dia
E um milhão de coisas mais:
Mais formação, viva o prazer
Vão levando até o que não podíamos perder

Sem lenço, sem documento, sem pastor
Me vejo pródigo, iludido, enganado
Ai, como a gente vai ficando cansado
De acreditar que a vida é o que se vê,
Vê na tevê

Sem lenço, sem documento, sem pastor
A vida da gente vai se acostumando com a dor
E esquece o início, os sonhos
E perde o viço e o vigor
Por isso eu preciso voltar
Para o Primeiro Amor

Como mostra a canção, o mundo está perdido, desorientado, confuso entre tantas opções. Não se sabe mais o que é certo, não se tem mais respostas para nada, pelo menos não objetivas. As respostas são sempre vagas, dependentes e relativas. Apesar do pós-modernismo negar que possa existir uma resposta concreta e absoluta, nós sabemos que ela existe.
A resposta para o mundo atual é Jesus, assim como sempre foi em todas as outras épocas em que a humanidade se pôs a pensar sobre sua existência e a razão desta. E a nossa posição como cristãos deve ser a que sempre foi, dizer ao mundo conturbado que ainda há esperança. Assim como a tecnologia e a ciência não deram conta dos problemas do mundo, o pensamento pós-moderno do relativismo também não dará. A única solução para o pecador é Jesus.
Nossa posição nesse mundo plural que se nos apresenta deve ser a de cristãos sólidos, que mantém a adesão aos fundamentos éticos e morais bíblicos, apesar do mundo inteiro ditar o contrário. Devemos mostrar ao mundo, como parte da missão que Cristo nos deixou, de que ainda existem verdades absolutas, e que a única solução para o mundo em crise está na velha rude cruz. Nosso discurso não deve se amoldar aos padrões irracionais do pós-modernismo. Podemos sim contextualizar nossa mensagem para que ela atinja o alvo desejado na obra de Deus, de acordo com o contexto social em que nos encontramos. Mas pecado sempre será pecado, porque a Palavra de Deus não muda, ela permanece para sempre.
A visão pós-moderna que nega a existência do certo e do errado, onde cada um faz o que lhe apraz, não deve nem de longe passar por nossos pensamentos como se fosse válida. Deus não deixou dúvidas em sua Palavra daquilo que seja certo ou errado. Algumas pessoas tentam adaptar esses conceitos de acordo com seus interesses, mas nós não podemos nos deixar influenciar por elas.
E o povo fazia o que lhe parecia correto. Mais do que nunca devemos mostrar a luz de Cristo através de nossas vidas. Mais do que nunca devemos deixar bem claro que somos diferentes, que não nos conformamos com esse mundo. Mais do que nunca devemos levar aos quatro cantos do planeta a mensagem da cruz. A mensagem que não muda. A mesma mensagem que salvou o homem dos primeiros séculos, é a mesma mensagem que salva o homem pós-moderno, confuso e sem rumo. Como diz um antigo cântico: “junto à cruz há lugar pra ti e pra mim”. E diante de tudo isso que nossa única posição seja a de servos de Deus, preparados para que Ele nos use. Servos prontos a levar a mensagem que transforma e liberta, a levar luz e conforto a um mundo em trevas e perdido.