segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Música na Igreja

É uma honra falar sobre algo que tem sido motivo de tantas críticas em nossos dias. Eu mesmo, por muito tempo, preservei uma visão extremamente limitada sobre o papel da música na igreja. Não que eu esteja livre totalmente de uma pré-concepção, vítima de uma herança altamente tradicionalista, mas procuro aos poucos, abrir-me para uma leitura mais contemporânea no que concerne à música.
Os tópicos aqui abordados foram retirados em boa parte da palestra “A Música na Igreja” do maestro Parcival Módolo e alguma coisa do site do maestro Flávio Santos. Não gosto de copiar ninguém, mas temos de valorizar as coisas boas que são escritas, e essas são algumas delas. Como não entendo tecnicamente de música, achei melhor buscar com quem entende, apenas endossando com algumas percepções que venho tendo ao longo de alguns anos.

"... Às margens dos rios de Babilônia nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião. Como, porém, haveríamos de entoar o canto do Senhor em terra estranha?" (Salmo 137)

Durante toda a história do povo no Velho Testamento e depois da vinda de Cristo, durante toda a nossa história cristã, a música fez parte dos momentos mais importantes da vida do povo de Deus. Isso continua sendo verdade em nossos dias. Contudo, a Igreja passa por um momento cuja ênfase quanto ao canto, ao som de instrumentos e das vozes no culto, não obedece a um padrão. Qual é o verdadeiro papel da música no culto? Para que realmente serve a música? Basicamente se cantava quando se estava alegre, quando havia motivos de festa. Como o povo de Deus, oprimido na babilônia, poderia entoar cânticos a Iahweh? Eles tinham de manifestar a sua tristeza e isso não poderia ser com cânticos. Apenas como introdução, vejo um contra-senso ocorrendo hoje com a música na igreja. Tiago 5:13 diz o seguinte: “Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores”. Não queira exigir que todos que estão na igreja devam estar felizes. Muitos ali estão com problemas gravíssimos, e só o fato de estarem no culto já é um milagre. Por isso não lance palavras como: “Você não pode estar triste na presença de Deus”, ou que “alegria é sinônimo de vida íntima com Deus”. Nem sempre isso é verdade! Se pregamos que temos liberdade na presença de Deus, devemos agir assim com todos.

Mas iniciando propriamente a palestra, vejo que basicamente a música ocupa 2 papéis importantes dentro de um culto, o de impressão e o de expressão.

O papel de impressão tem a ver com criar um ambiente próprio, uma atmosfera propícia que pode mexer com as pessoas, dependendo de sua susceptibilidade ou carências momentâneas. Você já deve ter ouvido falar por exemplo em pesquisas que são realizadas com plantas que se desenvolvem melhor quando em contato com algum tipo de música. Isto é verdade. Mas não só é verdade com plantas e animais, funciona também com o ser-humano. Você já deve ter ficado feliz ou triste quando ouviu uma música. Em algum momento uma música deve ter mexido com as suas emoções, fora de seu controle.
Parcival conta uma história de um retiro onde estava-se cantando alguns louvores altíssimos e outros mais altos ainda. Alguns jovens começaram, depois de 40 minutos, a saírem para fora enjoados e com dor de cabeça, outros entraram em um estado de euforia descontrolável dentro do ambiente. O preletor pediu várias vezes por silêncio antes de começar a falar mas não obteve sucesso. Foi então que o rapaz do piano começou a tocar uma música bem calma e tranquila e em menos de 5 minutos o preletor podia falar e ser ouvido. Esse é o papel de impressão da música e por isso existe a música certa para cada tipo de ambiente e para cada ocasião.

Ritmo x Melodia x Harmonia
Obviamente as pesquisas recentes mostram que música não é composta só desses 3 ítens, mas para nossa conversa hoje é um bom começo.
Ritmo é a marcação do tempo ou a frequência em que a ação se repete. Ritmo mexe com uma área específica de nosso corpo que são nossos músculos. Quando uma música enfatiza muito o ritmo, inevitavelmente nossos músculos (incluindo o nosso coração) será afetado.
Melodia são sucessões de sons e ela mexe com nossas emoções, somente ela faz isso. Existem instrumentos que só conseguem tocar melodias como a flauta, o piston, são os instrumentos melódicos. A melodia mexe tão duramente com as emoções que a melodia certa, em um auditório certo, destrói emocionalmente qualquer um. Não se escandalizem com o que vou dizer agora: Não há necessidade do Espírito Santo para fazer um auditório chorar; basta usar a melodia certa. Para mudar de vida, para ser uma nova pessoa, precisa-se do Espírito, mas fazer chorar a gente faz com a melodia certa, facilmente. E não só fazer chorar.
Harmonia pode ser definida como sons simultâneos. A combinação, por exemplo, de um coral, cada um cantando a sua voz, forma uma harmonia. A harmonia mexe com o intelecto, ela tem a ver com o córtex cerebral, com cognição e criatividade. Quanto mais complicada a harmonia, mais complicada é para ser ouvida. Exige um pouco mais de "massa cinzenta". Por isso, nem todo mundo aprecia uma tremenda fuga em órgão de Bach, porque é harmonia elevada ao extremo.
É natural que, quando qualquer um desses elementos é por demais enfatizado, ocorre o detrimento dos outros. O problema é que quando valorizamos o ritmo, parte das informações cerebrais são desligadas. Por isso, o ritmo é um dos elementos mais valiosos para o desligamento das pessoas nos centros de umbanda, yoga, zen budismo, etc.. "Mantra" nada mais é do que uma pequena melodia repetida tantas vezes que se torna um ritmo. Excesso de ritmo leva as pessoas a pararem de pensar. Por isso cuidado com os cânticos que repetem a mesma coisa incansavelmente. Cuidado com aqueles “ministradores” que falam chorando, querendo te influenciar. Não se engane, isso são técnicas de manipulação de massa que se aprendem com qualquer guru das vendas. Aliás, qualquer mestre em motivação pode convencer uma platéia incauta de crentes, e os fazer chorar.
A música fica indelevelmente arquivada em nosso cérebro em uma região que se chama cérebro mamal. Todo professor de cursinho sabe disso e por isso trabalha com música. Assim como a música, os odores são gravados na mesma região cerebral. Por isso você jamais se esquece de uma certa fragrância que você sentiu durante sua vida. Da mesma forma você jamais se esquecerá das músicas dos mamonas assassinas, infelizmente.
Em razão de tudo isso podemos entender quão importante é o aspecto impressivo que a música ocupa dentro de nossas igreja e também por isso o cuidado que devemos ter com a mesma. Lutero já dizia: "eu sei que amanhã, segunda-feira, vocês vão esquecer o que eu estou falando agora no meu sermão. Mas os hinos que os faço cantar, jamais vão ser esquecidos". Por tudo isso o principal aspecto que o responsável pelo grupo de louvor deve ter é com a Palavra de Deus. Os hinos devem refletir fielmente a Bíblia. Eles devem ser analisados da mesma forma que uma pregação é analisada pelo pregador consciente antes de pregá-la. Sempre que quero colocar um hino novo na lista, devo passá-lo pelo crivo da Bíblia, senão estarei catequisando a igreja com baboseiras teológicas.

Papel de Expressão
Esse papel acontece quando a música diz alguma coisa junto com o texto, ela endossa o texto, no caso a pregação da Palavra. Do contexto de onde vim esse papel era desconhecido pela igreja, ou ignorado não sei. Era extremamente comum ouvir algum grupo de senhoras cantarem sobre o “homem de branco”, “anjos subindo e descendo”, “fogo no altar”, em um culto de santa ceia. Não havia concordância entre o momento do culto e a música cantada. Resultado: a mensagem não alcançava todo o resultado que poderia.
Nesse momento quero abrir um parêntese para falar a respeito do termo levita, muito usado hoje em dia. Vamos ler Nm 1:50-51. Como se vê pelo texto, o levita deveria realizar toda a administração do tabernáculo no deserto, que incluia a montagem e desmontagem do mesmo. Em outras palavras o levita era uma espécie de trabalhador da construção civil. Claro que outra de suas funções era a responsabilidade pela música nos eventos festivos, mas não podemos dizer que era apenas essa. Se alguém hoje em dia toma para si o termo de levita, deveríamos perguntar-lhe se ele também faz as obras de manutenção da igreja. Resumindo: não temos levitas hoje em dia na igreja, essa função foi extinta, pertence ao judaísmo e só a ele. No NT só aparece 3 vezes o termo.
Agora, se queremos seguir o exemplo do AT, deveríamos ser tão criteriosos quanto eles eram na escolha daqueles que ministrariam no templo e nos sacrifícios. Leiamos I Cr 15:22. Eles escolheram o melhor dentre todos os levitas. Há muitas áreas onde as pessoas podem servir a Deus dentro da igreja, mas por causa do “status” muitos preferem estar lá na frente. O que sinto é que não se dá tanta importância à música nas igrejas, como se ela fosse só um adereço do culto, mas não é. A música deve ser tratada com a mesma seriedade quando se convida um pregador de fora para pregar.

Teologia e Música
Muitos por aí dizem: “É preciso manter os jovens na igreja”, “é melhor que eles estejam aqui do que no mundo”. É exatamente por isso, por eles estarem aqui que precisam fazer melhor que lá fora. Havia um tempo, na história reformada de nossas igrejas, que o melhor de música que se produzia era dentro das grandes catedrais. Pessoas viam de fora para aprenderem boa música na igreja. Bach passou 45 anos de sua vida trabalhando como músico de uma única Igreja (a Igreja de St. Thomaz, em Leipzig). Sua obra inteira foi S.D.G. (Soli Deo Gloria). Ele assinava assim. Essa era a sua finalidade; por isso ele fazia o melhor que podia, exatamente porque era para a glória de Deus.
Ivan Lins declarou um dia em uma entrevista: “A música precisa estar subordinada à Palavra”. Incrível a percepção de um músico “mundano” como costumamos chamar, quando vemos muitas vezes nas igrejas os instrumentos disputando o maior volume com os cantores. Tudo isso faz parte da percepção que devemos ter quando trabalhamos com música na igreja.
Quando falamos de música boa ou ruim, não estamos defendendo a música do hinário em detrimento do “louvor” atual. Existem músicas atuais muito boas, assim como existem músicas no hinário que precisam ser revistas. A maior parte das músicas atuais são ruins porque ainda não foram filtradas pelo tempo. Se acontecer como aconteceu em séculos passados, onde só ficou a música boa, em alguns anos vamos ter uma melhor qualidade das músicas que se cantam hoje.
A nossa proposta é que façamos uma leitura cuidadosa do texto, tanto dos novos cânticos quanto dos hinos impressos, mais dos novos porque não foram ainda filtrados pelo tempo, e usemos somente aqueles que realmente são bons, nessa linha de raciocínio.
Eu tenho visto que por várias vezes o grupo de louvor canta algum cântico relacionado com a pregação da noite. Isso é ótimo, mas acho que não precisamos deixar isso totalmente a cargo do Espírito Santo, podemos fazer nossa parte fazendo coincidir o assunto da noite com os hinos cantados.
A música não é um parêntese no culto. Ela faz parte do mesmo e ocupa lugar de honra e de importância vital.

Termos em Moda
Existem alguns termos que estão em moda mas que na verdade são recursos persuasivos para transformar baboseiras “teológicas” em palavras inspiradas. Em 5 minutos de pesquisa pela internet eu encontrei vários desses termos “pipocando” na rede. Seguem alguns deles. Os termos encontrados estão em negrito, os meus comentários em parêntese.

. Restaurando levitas para Deus, o chamado e unção profética de Davi (Davi era da tribo de Judá!!)
. João Batista: o primeiro homem a ter a unção de Elias ( o que???!!!)
. Unção dos quatro seres. (Meu Deus o que é isso????... por isso tem gente se arrastando e urrando que nem leão por aí !!)
. Adoração profética (qual o papel do profeta hoje em dia? Tem a mesma conotação do profeta da Bíblia???)

Sejamos sábios irmãos. Pessoas mal intensionadas estão usando palavras de peso expressivo para forjar uma falsa unção (aliás, unção é um termo que se tem usado muito hoje em dia, quase sempre fora do seu contexto bíblico). Na dúvida vá até a sua Bíblia e faça uma análise séria dessas expressões que estão na moda. Você ficará impressionado porque na maioria das vezes nem vai encontrar esses termos na Bíblia, e se não está na Bíblia é heresia.

Música Sacra ou Profana?
Quando os nossos avós cantaram os hinos dos Salmos e Hinos (o primeiro volume traduzido integralmente) eles cantaram música sacra, absolutamente sacra, porque aqueles sons nunca haviam sido ouvidos antes. Não interessa se era música de bar americano. Uma coisa precisamos ter em mente: o sacro, na verdade, aquilo que é verdadeiramente aceito por Deus, não tem nada a ver com o tipo de sons; tem a ver com o coração e lábios limpos, tem a ver com o cantante e com Deus. Mas porque, por exemplo, há alguns anos instrumentos de percussão eram profanos e não podiam entrar na igreja? Simplesmente porque associávamos o tambor com o centro de macumba, então esse instrumento era profano. Esse é um mito que devemos romper. Música é música, assim como inglês é inglês. Música é uma forma de linguagem através dos sons e tecnicamente nada mais do que isso.
O hino "Mais Perto Quero Estar" para os milhões de cinéfilos que foram assistir o filme "Titanic" lembra apenas e tão somente a cena de desespero e despedida dos músicos daquela tragédia. Este hino somente tem um significado espiritual e especial para aqueles cristãos que conheceram o hino em sua experiência religiosa.
Na prática o que um compositor, cristão, sensato, polido e equilibrado procura fazer é utilizar combinações sonoras que não estejam tão associadas ou vinculadas a coisas mundanas de seu tempo. Muitas vezes ele guarda na gaveta suas criações, e muitos deles só são reconhecidos na posteridade, como é o caso de Bach, cujas partituras foram usadas para enrolar mercadorias, até que um músico descobriu novamente a obra de Bach.
Portanto cabe a nós a sensatez e a sabedoria ao escolher as músicas e os ritmos que deverão compor nossos cultos.
Não consigo entender porque algumas igrejas simplesmente se negam em aceitar que existe coisa muito boa sendo feita atualmente. Mas também não consigo entender porque algumas igrejas se negam a aceitar que já foi feita muita coisa boa no passado e que eles não precisam jogar tudo isso fora. Acredito piamente que possa existir um concenso entre passado e presente, primeiro porque há coisas boas do passado e segundo porque devemos respeito por aqueles que nasceram há alguns anos mas ainda estão em nossas igrejas como corpo de Cristo.

E agora, o que fazer?
. Creio que já vai melhorar muito quando lermos os textos dos cânticos, do hinário ou dos louvores atuais. Não tenha medo em fazer isso, os hinos não são inspirados como a Bíblia, por isso fique a vontade em mudar alguma letra que você identificar como não-bíblica. Quando fizer isso, fale com a congregação sobre isso, eles verão que há uma preocupação com a Palavra dentro dos nossos cânticos e não somente na pregação.
. Incentive o aprimoramento daqueles que lidam com música dentro da igreja. Temos de oferecer o melhor para Deus, melhor inclusive do que o mundo oferece ao seu deus.
. Será que precisamos importar tudo o que se faz nos EUA? Será que não temos capacidade de criar nossa própria música, dentro do nosso contexto, com a nossa cara? Tem gente boa fazendo isso e creio que podemos mudar esse quadro.
. Assim como os levitas no AT, os músicos da autalidade devem levar a sério o ministério que executam na igreja. Isso requer preparação espiritual, familiaridade com a Bíblia, vida consagrada a Deus. Se você não sabe mais do que meia dúzia de versículos da Bíblia, ou se não conhece as principais doutrinas da Palavra, vai se deixar levar por uma melodia bonita, ao invés de ser crítico com a mensagem que se vai passar. O ministério de música é um ministério sério como outro qualquer e deve ser encarado desta maneira.

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