sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Igreja – Uma Grande Família

Gn 6: 17-19

Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará. Mas contigo estabelecerei a minha aliança; e entrarás na arca, tu e os teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos contigo. E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar vivos contigo; macho e fêmea serão.

At 4:32

E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.

I Jo 3:18

Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações;

Talvez vocês estejam pensando: O que esses três textos têm a ver um com o outro? Tentarei explicar.

Na verdade os textos têm a ver com a idéia da família de Deus, têm a ver com os propósitos que Deus planejou para a sua igreja nesta Terra, têm a ver com nosso papel de cristãos, com aquilo que pregamos e com aquilo que efetivamente fazemos.

Costumamos ver o dilúvio como um julgamento de Deus sobre uma raça humana pecadora, maldosa e perversa. E por um lado é isso mesmo. Todavia gostaria de analisar mais a arca e menos o dilúvio. Se nosso foco recair sobre a arca, ao invés de vermos um Deus cruel, que extermina todo aquele que o contraria, veremos antes a misericórdia de Deus. Na perspectiva da arca, vemos o quanto Deus ama o ser-humano, e o quanto de chances Ele nos proporciona. O homem merecia aquilo mesmo, o dilúvio, porque o salário do pecado é a morte, mas Deus dá mais uma chance, e ao longo da história bíblica perdemos a conta de quantas chances Deus proporciona ao homem caído e pecador. Deus também é um Deus de chances. Portanto o dilúvio é muito mais que um julgamento implacável, é a misericórdia de Deus derramada de uma forma toda especial a uma família justa e fiel. Noé tinha todas as influência do mundo para ser igual aos outros, mas não foi, ele foi um homem irrepreensível no meio de uma geração corrupta. Mas isso fica para outra hora.

O que gostaria na verdade de destacar é a amplitude e a abrangência da arca. Lá coube todo mundo que deveria caber. Noé e toda a sua família. De todos os animais terrestres e de toda a ave entraram pelo menos um casal de cada. Todo mundo juntinho, apertadinho. Sem especular se os animais eram filhotes ou não, eles eram diferentes, cada um de uma espécie, cada um de um jeito. O cheiro não deveria ser muito agradável, mas mesmo assim eles conviveram longos dias juntos. Não deve ter sido fácil, mas foi plenamente possível. E só foi possível porque a arca foi o plano de Deus para salvar a humanidade e nesse caso se torna uma tipologia de Cristo. Mas também não vou falar sobre salvação hoje, mas o que a arca nos ensina sobre uma das funções da igreja como a família de Cristo.

Na arca coube de tudo. Uns coloridos e outros sem cores. Uns que cantavam alto e outros que talvez nem sons emitiam. Uns que comiam feito leão e outros que ciscavam vez ou outra no chão. Se é uma coisa que deve ter havido na arca foi tolerância e paciência, porque do contrário a convivência se tornaria insuportável. Lá fora o mundo despencava em água. Era água por cima, água por baixo, água batendo na lateral da arca, e isso devia fazer muito barulho. Embora talvez tenham sentido medo, no fundo uma sensação de proteção alentava seus corações, como alguém dizendo: não precisam ter medo porque estão a salvo da tempestade.

Arca, compaixão, amor, paciência,tolerância, igreja. A gente pode aprender muito com Noé e seus bichos. E é a partir daqui que quero tecer algumas reflexões sobre o papel mais importante da igreja neste mundo, o papel de amar.

Toda empresa que é dirigida por objetivos e tem ambições de crescer deveria ter uma visão. A visão de uma empresa é que pautará toda a estratégia dessa empresa para chegar onde deseja, até onde sua visão alcançar. A visão da Coca-Cola, por exemplo, é: matar a sede do mundo. Talvez não seja a forma mais saudável de matar a sede, mas é essa visão que norteará toda a ação da empresa e inclusive seus objetivos.

A igreja da mesma forma também deve ter uma visão, algo que a norteie, a guie. Seja qual for a visão escolhida pela igreja, ela deverá estar baseada no amor. É o amor que deveria orientar cada cristão em suas ações, cada um que um dia resolveu seguir a Cristo.

A partir do amor podemos retirar todas as outras ações que visam o bom relacionamento entre os irmãos, a família de Deus. A partir do amor podemos falar em comunhão, sorriso, afeto, abraço, alegria, cuidado, amparo, compreensão, acolhimento. É como Paulo fala aos coríntios, sem amor nenhuma dessas ações são possíveis, o amor é a base de tudo. Por isso o amor é nossa marca, é nossa identidade, e como identidade, é por causa do amor, que o mundo reconhece que somos filhos de Deus.

Brennan Manning em seu livro “O Evangelho Maltrapilho” às vezes me choca, mas não posso deixar de concordar com ele quando ele diz que muitas vezes, ao invés de proporcionarmos um ambiente de acolhimento para as pessoas, proporcionamos um ambiente que inibe as pessoas, esquecendo-nos que enquanto estivermos nesta Terra, estaremos sempre sujeitos ao pecado, porque como o próprio apóstolo Paulo nos adverte, aquele que está em pé, olhe para que não caia. Criamos um ambiente onde aparentemente todos são puros, quase intocáveis, e quando alguém tropeça, praticamente o expulsamos da arca, à mercê do dilúvio, e como diria alguém: eu perdôo mas não esqueço.

1. A família de Deus, cuja visão está baseada no amor, deve promover o acolhimento e deve dar o ombro para aquele que tropeçou, mas que quer se levantar. Lucas 17 deixa isso muito claro. Se alguém pecar contra mim e arrepender-se, é minha obrigação perdoá-lo. Quantas vezes perguntaram os apóstolos? Todas as vezes que forem necessárias respondeu Jesus, ao que os apóstolos concluíram: então acrescenta-nos a fé. O que isso quero dizer? Que é fácil exercer esse tipo de perdão? De maneira nenhuma. Mas é possível. Claro que é, porque Jesus o disse.

Mas o acolhimento não é só manifestado entre os irmãos, mas também àquele que está ingressando na arca e que está em processo de entender que lá fora a tempestade vai derrubá-lo, mas dentro da arca há salvação. Muitas vezes esquecemos que a santificação é um processo do qual todos, indistintamente fazem parte, e queremos exigir do novo convertido que ele seja tão maduro quanto nós que temos décadas de janela. Ele precisa de nosso apoio, de nossa oração e de nosso acolhimento. Ele precisa ter suas feridas curadas quando cair, e não ser soterrado com pedras de farisaísmo. Ele precisa de amor, nossa marca, nossa identidade.

2. A família de Deus deve procurar o convívio e a comunhão. Foi assim que os bichos conseguiram sobreviver longos dias dentro de uma arca, fechados. Era assim que a igreja de Atos vivia nos promórdios da nossa história. Seus corações eram somente um, seus desejos eram comuns, suas alegrias, tristezas, lutas e vitórias eram comuns. Tudo era compartilhado. As pessoas de fora viam que existia algo muito diferente naquele povo. Jerusalém vivia tempos difíceis, onde havia muitos necessitados entre o povo, muita gente que sofria pelo descaso do governo romano (parece que eu conheço isso de algum lugar). Um exemplo claro disso é o evento do tanque de Betesda. Uma multidão de doentes a espera de um suposto anjo que vinha e agitava as águas. Por um lado os judeus os discriminavam porque pensavam serem objetos de maldição divina, por outro lado os romanos os deixavam à mercê da sorte. Mas na igreja do Senhor, incrivelmente, não havia necessitado algum, ninguém passando fome, ninguém mendigando. E o Senhor acrescentava cada dia, aqueles que iam se salvando. Essa é a marca de uma igreja cuja visão baseia-se no amor, que vive como uma verdadeira família.

O mundo tem se tornado frio. Estamos cada vez mais nos fechando dentro de nossos condomínios. Vivemos como em cadeias, com muito mais conforto é claro, mas presos de qualquer forma. Pra piorar vivemos em uma região fria por natureza, e não fria no sentido climático mas no sentido social, de relacionamentos. Eu sou de Campinas e sei do que estou falando.

E cada vez mais o homem tem criado métodos de afastar as pessoas umas das outras. Hoje não precisa mais sair de casa para fazer compras. É só acessar o site do mercado, escolher os produtos, digitar o número do seu cartão de crédito e a compra chegará am algumas horas na sua casa. Isso acontece também com lojas de roupa, carro, e muito mais. Nem no pedágio as pessoas querem mais parar. Com o sem-parar, o operador do pedágio fica sem nosso bom dia e sem o folheto falando sobre o plano da salvação. De igual forma a moça do banco, porque dá pra fazer quase tudo de casa pelo computador. E assim vamos nos afastando do convívio, da gentileza, da oportunidade de mostrar ao mundo que somos diferentes, porque somos filhos de Deus. Assim vamos nos tornando frios, como estava lá no dilúvio, fora da arca, no meio daquele aguaceiro todo, porque dentro da arca havia calor, havia comunhão, os bichos conversando entre si e Noé com sua família faziam o mesmo.

A família de Cristo precisa preservar a comunhão. E não estou falando só de, de vez em quando participar de um jantar na igreja para manter as aparências, não estou falando só daquele momento de cumprimentos que fazemos antes de começar o culto. Estas coisas são importantes mas não basta. Estou falando de comunhão como uma famíla. Estou falando daquele irmão que liga durante a semana para saber se aquele problema pelo qual oramos no domingo à noite foi resolvido. Estou falando da comunhão de Atos, onde o seu problema também é meu problema, onde a sua alegria, também é minha, onde o seu choro deve me levar a chorar.

Vivemos em uma ansiedade tão grande, que perdemos o gosto por nos reunirmos como família. Antigamente (minha avó que contava), como não tinha televisão, as pessoas sentavam-se na calçada para conversarem, contarem o que havia se passado naquele dia. Como não tinha internet, as famílias passavam mais tempo juntas. Havia tempo para o diálogo, para o discipulado dos filhos. Hoje não dá mais. Chegamos extremamente cansados depois de 10 ou 12 horas de trabalho fatigante. Precisamos ler o jornal e assistir o noticiário porque afinal de contas o homem moderno precisa estar muito bem atualizado. Precisamos ver nossa caixa de e-mails que transborda a cada dia. Daí o tempo que era da família foi tomado com qualquer outra coisa “mais urgente”. E se não achamos tempo nem para a família, como vamos encontrar tempo para a família de Deus? É cada um por si e Deus por todos.

3. A grande família de Deus deve entender as diferenças de cada um e deve saber respeitar essas diferenças em amor.

Somos muitos, um de cada cor, com ascendentes em muitas regiões do país, com gostos, sentimentos e culturas diferentes. Cada um de nós veio de um contexto totalmente diferente, com hábitos e características diferentes. Deus nos fez assim, ele quis que fôssemos assim, e nós precisamos em primeiro lugar aceitar, e depois aprender a conviver com isso.

É por isso que a igreja é um corpo, cada qual com a sua função, cada qual com seu dom, cada qual um projeto particular de um Deus soberano e amoroso.

Quando entendemos que cada um de nós tem uma importância especial dentro do corpo de Cristo, começamos a aceitar melhor as diferenças de cada um, porque, como haveríamos de desempenhar tarefas tão distintas se fôssemos iguais?

Tem aquele que canta alto e aquele que não canta. Tem aquele que levanta a mão efusivamente e aquele que mal abre a boca. Tem aquele que é chorão e aquele um pouco mais seco, assim como eu. No meio dessa multidão chamada família de Deus encontramos aqueles que são extremamente bem humorados e aqueles que são mais tímidos, tem gente muito estranha e gente totalmente certinha para os padrões da sociedade. Há gente de todo tipo, pra todo gosto. É assim que é porque foi assim que Deus fez. O problema não está nas pessoas e suas diferenças diante de Deus, mas o problema está em nós, em como encaramos essas diferenças, tentando adaptá-las aos nossos padrões restritos, como se o nosso fosse melhor que o do outro.

Para promovermos o acolhimento, o convívio e a comunhão, para entendermos as diferenças uns dos outros, precisamos do amor. É ele que nos fará aceitar o outro com suas peculiaridades. Francisco de Assis já dizia: pregue o evangelho, se preciso use palavras, e eu reitero, viva o amor, se for preciso use palavras, e você verá que quase sempre não será necessário. “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Amar por obra e em verdade é amar com ações, é demonstrar amor. E mais uma vez o apóstolo João nos coloca na parede dizendo: como podemos amar a Deus que não vemos e odiar nosso irmão a quem vemos?

Faço minhas as palavras do pastor Natanael da IBCS, “O nosso negócio, como igreja, é amar, a gente tem que ser bom nisso”.

Temos vários exemplos na Bíblia que nos ensinam como demonstrar o amor. Amar como o Pai recebe um filho que exige toda a sua herança antecipada, um filho que mesmo que indiretamente, desejou a morte do Pai, e que mesmo assim é recebido não como escravo, mas como filho legítimo, com festa, anel e roupas limpas e novas.

Amar como o bom samaritano amou, mesmo sabendo que quem estava ali caído era um judeu; mesmo sabendo que aquele povo os odiava e os rejeitava, mesmo assim cuidou daquele homamcom as próprias mãos, cuidou de suas feridas e levou-o a um lugar seguro, usando seus próprios recursos financeiros.

E por que amar desse tanto?

Porque essa é a nossa identidade, base para a nossa visão. É por isso que seremos reconhecidos e o mundo verá a luz de Cristo em nossas vidas.

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