terça-feira, 24 de novembro de 2009

Jesus quer se revelar aos seus filhos

Lucas 24:13-31 “E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús. E iam falando entre si de tudo aquilo que havia sucedido. E aconteceu que, indo eles falando entre si, e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles. Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem. E ele lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós, e por que estais tristes?
E, respondendo um, cujo nome era Cléopas, disse-lhe: És tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias? E ele lhes perguntou: Quais? E eles lhe disseram: As que dizem respeito a Jesus Nazareno, que foi homem profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; E como os principais dos sacerdotes e os nossos príncipes o entregaram à condenação de morte, e o crucificaram. E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. É verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro; E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que também tinham visto uma visão de anjos, que dizem que ele vive. E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém, a ele não o viram.
E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. E chegaram à aldeia para onde iam, e ele fez como quem ia para mais longe. E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou e partiu-o, e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes.”

Por toda a história da humanidade, a iniciativa em se buscar comunhão nunca partiu do homem. Deus sempre tomou a iniciativa na direção do homem, com o objetivo de revelar-se ao mesmo e de prover-lhe salvação. E o primeiro exemplo aconteceu logo no início, em Gênesis, logo depois do homem e da mulher pecarem, Deus vai ao seu encontro e providencia-lhes roupas adequadas, porque nem isso o homem soube escolher direito. E a busca de Deus em direção ao homem vai se revelando nas páginas das Escrituras com Abraão, Moisés, Noé, os profetas e continua até hoje, porque nós somos provas vivas de que Deus um dia nos buscou no nosso estado de miséria e nos trouxe à sua maravilhosa luz.
E Jesus não fugiu à regra, visto que em todo seu ministério terreno, promoveu uma incessante auto-revelação com o intuito de fazer seus discípulos entenderem que Ele era verdadeiramente o Emanuel, o Deus conosco. Os milagres de Jesus, suas obras, suas palavras, no fundo nada mais eram que provas de sua identidade como aquele que havia de vir, o Messias esperado, embora na maioria das vezes, os seus próprios discípulos não conseguiam enxergar isso.

O texto que lemos nos mostra um, dentre muito eventos que marcaram a pós-ressurreição. Jesus se apresentou por várias vezes aos seus discípulos após ter ressuscitado, e dentre esses, algumas mulheres que faziam parte do seu discipulado. Não podia haver dúvidas quanto à ressurreição de Jesus. Uma das bases sob as quais se apóia toda a teologia cristã é exatamente a ressurreição de Cristo, a outra é a sua morte.
O evento da ressurreição é tão importante que o apóstolo Paulo na sua primeira carta aos Coríntios no capítulo 15 e no versículo 17 diz: ”...e se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e ainda permaneceis nos vossos pecados”. Não só a morte, mas a ressurreição de Jesus é fundamental para a certeza de nossa salvação.
Por isso Cristo não deixa dúvida quanto à sua ressurreição e aparece em várias ocasiões para vários de seus discípulos.
Jesus quer se revelar a nós tal qual Ele é; sua pessoa, sua obra, seu caráter, sua santidade; todavia o texto que lemos mostra-nos três barreiras que podem nos impedir de conhecer a Jesus como Ele precisa ser conhecido.

A primeira barreira é o foco nas coisas materiais. Quando Jesus começou seu ministério e começou a chamar seus doze apóstolos para serem seus discípulos e andarem com Ele, logo esses homens começaram a imaginar se este Jesus não seria de fato o Messias tão esperado. Havia naquela época entre os judeus um sentimento de que algo estava para acontecer. Israel estava passando por uma faze de ausência profética, tanto que o período entre o Antigo e o Novo Testamento é chamado tempo de silêncio. Foram aproximadamente 400 anos onde Deus não enviara nenhum profeta para falar com a nação. Por isso eles viviam em uma expectativa apocalíptica e messiânica.
Jesus chega nesse exato momento de expectativa e seus discípulos logo o identificam como sendo provavelmente o Messias. Mas o entendimento dos judeus com relação ao Messias era pura e simplesmente nacionalista e patriótico. Eles viam no Messias um libertador político para o povo de Israel e apesar de Jesus por diversas vezes ter dito qual era a sua missão de fato e nunca tê-la relacionado com liberdade política, no fundo essa esperança sempre fez parte do pensamento judeu daquela época, e os discípulos que iam a caminho de Emaús mostram claramente essa concepção equivocada da obra de Jesus. Encontramos isso no versículo 21. A visão a respeito de Jesus por aqueles dois discípulos era puramente material, focada nas coisas desse mundo. Eles ainda não viam a Jesus como o Salvador do mundo no sentido espiritual. Eles ainda não viam a Jesus como aquele que os livraria da condenação do pecado. Eles não entendiam que sua morte era para perdão de pecados e por isso estavam tristes. Estavam tristes porque para eles o sonho da liberdade de Roma havia acabado no túmulo. A esperança de ser um povo livre e não mais extorquido pelos tributos romanos se fora quando lá na cruz, aquele em quem depositaram toda a sua confiança dera o último suspiro e entregara seu espírito. Sua visão materialista de Cristo os impediu de relembrar as palavras de Jesus quando disse que ia ressuscitar. Também os impediu de analisar as Escrituras e entender que Isaías falava dele quando descreveu o servo sofredor. Na verdade, sua visão materialista os impediu de entender quem de fato Jesus era.
Entender a Jesus tal qual Ele é, é base para entendermos o seu propósito maior em nossas vidas que é nos salvar, e depois de nos salvar, nos santificar, e na medida em que vamos sendo santificados, vamos ficando mais parecidos com nosso Mestre. Esse é o plano maior; essa é a vontade de Deus principal para nossas vidas. Mas muitas vezes entulhamos nossa oração com petições puramente materiais e com isso demonstramos que na verdade não conhecemos a Jesus como Ele é.
Quando definitivamente entendermos Jesus em sua totalidade, e qual o seu objetivo maior em nossas vidas, quando deixarmos de acreditar na baboseira que ouvimos da maioria dos pastores da prosperidade, quando nos despojarmos de nossa visão materialista e mesquinha de entender Jesus, estaremos iniciando de fato nossa caminhada com o Mestre. Nossas orações mudarão. Nosso relacionamento com o Pai mudará, e conseqüentemente nosso caráter mudará e estaremos então no rumo certo.

A segunda barreira é a incredulidade. Versículos 25 e 26 “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?”. Néscio no Aurélio significa ignorante, incapaz. Incapaz de quê? Incapaz de crer. Crer no quê? Crer na Bíblia. Existem dois problemas básicos na questão do crer na Bíblia ou no que Deus prometeu na sua Palavra. O primeiro vou tratar neste tópico. É quando eu entendo a Palavra, sei do que se trata, mas não consigo crer, aplicar aquela Palavra em minha vida. Acho muito bonito, mas não consigo acreditar que Deus possa fazer aquela Palavra se cumprir em mim, porque muitas vezes crer no que a Bíblia diz implica em esperar.
Não sei se isso lhe parece familiar, mas em muitos momentos de nossa vida, naqueles momentos mais angustiantes quando a provação e a dor chegam a limites quase insuportáveis, parece que precisamos ver algo acontecendo para crer. Precisamos tocar, apalpar, sentir, porque senão não conseguimos acreditar. É a fé empírica, a fé com a qual fomos contaminados pela religião do imediatismo. Essa fé exige que eu veja, que eu toque, que eu sinta. Essa fé não está só contaminando a nossa vida como um todo, mas está contaminando alguns cultos em algumas igrejas. Lá é preciso sentir, é preciso chorar, é preciso se arrepiar, porque senão Deus não se fez presente. A fé empírica, ou seja, aquele que precisa ser provada com coisas reais e visíveis, é a fé que exige que a minha benção venha amanhã. Amanhã não, venha agora, já. Essa fé está baseada não em Deus e em sua Palavra, mas está baseada nas experiências minhas e das outras pessoas, porque se aconteceu com meu irmão, tem que acontecer comigo.
O Senhor quer se revelar a nós e Ele usa muitas vezes momentos de aflição para fazer-nos chegar mais próximos a Ele, e infelizmente, muitas vezes desperdiçamos esses momentos, e ao invés de chegarmos próximos, nos afastamos de Deus.
Os discípulos perderam uma boa oportunidade de avaliar com cuidado as Escrituras para ver o que realmente Elas diziam a respeito do Messias. Ao invés disso ficaram escondidos e esperando algo acontecer. Por misericórdia e pela sua soberania, Jesus, mesmo assim se revela a eles dando-lhes provas visíveis de sua ressurreição. E por misericórdia Jesus continua se revelando a nós de várias formas e maneiras. Mas o que Ele realmente quer é que tenhamos uma fé vigorosa, consistente, que crê simplesmente porque a Bíblia diz. Que não precisa de sinais ou evidências externas para acreditar. Mas crê simplesmente porque conhece a Jesus como Ele realmente é, um Deus que zela pela sua Palavra.

A terceira barreira que nos impede de conhecer a Jesus tal qual Ele é, é a barreira da falta de intimidade com a Palavra. Versículo 27 “E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”. Jesus precisou explicar e discorrer em toda a Escritura, mostrando que sua morte era necessária. Que convinha ou era conveniente que Ele sofresse tudo o que sofreu. Que não só os profetas, mas até o Pentateuco já falara a respeito de sua morte e de sua ressurreição. Todavia o que parece é que não só eles tinham dificuldade de crer no que estava escrito na Bíblia, mas eles igualmente tinham pouca intimidade com as Escrituras, ao ponto de não reconhecerem as passagens que falavam sobre a vida e obra do Messias.
Quando não temos intimidade com a Palavra, inevitavelmente seremos consumidos na hora da angústia ou da provação. Quando não sabemos de fato o que Jesus prometeu e o que não prometeu em sua Palavra, corremos o sério risco de, ou não aplicarmos as promessas de Deus em nossa vida, ou aplicarmos de forma equivocada esperando coisas que Deus nunca prometeu. Por isso tem tanta gente decepcionada na igreja.
E veja como as coisas se misturam e são interdependentes. Quando não tenho intimidade com a Bíblia, não posso conhecer a Jesus de fato, como Ele é. E se não conheço Jesus como posso ter fé no mesmo? Mas o pior é quando acho que conheço a Jesus, mas na verdade o conheço com uma imagem distorcida. Uma imagem materialista e humanista. Vejo a Jesus como um irmão que está pronto a fazer tudo o que quero e a satisfazer todos os meus desejos. Vejo um Jesus que pode me dar tudo o que acho que verdadeiramente vai me fazer feliz. Jesus está preocupado sim com todos os aspectos de nossa vida, inclusive o material, mas enquanto Ele não puder transformar nosso caráter, nos moldar de acordo com sua vontade, as outras coisas serão como lixo, secundárias.
Quando conheço a Jesus de fato, minhas aspirações serão outras. As prioridades de minha vida serão o seu reino e não o meu reino, as preocupações que ocuparão minha mente serão em como ser cada dia mais fiel e parecido com meu Jesus e não como me enriquecer cada vez mais. Minha mente e meu coração estarão voltados para pessoas e não para coisas. As coisas vão vir como conseqüências naturais, mas elas não encherão meu coração.
E quando optamos pelo evangelho do aqui e agora, corremos um sério perigo, o perigo de não conhecermos a Jesus verdadeiramente. O perigo de conhecermos um Jesus interpretado pela teologia da libertação. O perigo de crermos em promessas que não foram feitas e por isso não serão cumpridas. O perigo de nos decepcionarmos e nos entristecermos como aconteceu com os discípulos de Emaús.
Conhecendo a Cristo de verdade nosso foco maior não será material, mas sim espiritual. Conhecendo a Cristo de verdade nossa fé será fortalecida e poderemos com a ajuda do Santo Espírito vencer as provações. E o único meio de conhecer a Cristo de verdade é através do estudo sistemático da Palavra, junto com oração e uma vida consagrada a Deus. Que possamos dizer como disse o salmista: “Oh! quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais doces do que o mel à minha boca. Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; por isso odeio todo falso caminho. Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho”. Que Deus nos abençoe!

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