terça-feira, 20 de abril de 2010

NÃO HÁ VITÓRIA SEM CRUZ

Mateus 16:24-25 “Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.

Mateus 27:39-42 “Os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça e dizendo: Ó tu que destróis o santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, se és filho de Deus, e desce da cruz!
De igual modo, os principais sacerdotes, com os escribas e anciãos, escarnecendo diziam: Salvou aos outros, a si mesmo não pode salvar-se. É rei de Israel! Desça da cruz, e creremos nele.

Esta semana de acordo com o calendário cristão, relembramos os últimos dias de Jesus aqui na Terra. Os dias que antecederam a sua morte, o dia da sua morte, sexta-feira, e o dia da sua ressurreição, o primeiro dia da semana, ou seja, hoje. Estes dias são dias especiais de comemoração para o povo que se chama pelo nome de cristão, e não poderia ser diferente, porque foram nestes dias que Jesus encerrou a sua obra terrena e salvadora. Foram nestes dias que Deus cumpriu seu plano de redenção da humanidade, o que para nós foi a melhor e maior coisa que Deus já realizou, visto que foi a morte e ressurreição de Jesus que nos tirou das garras do pecado e nos reconciliou de novo com Deus.

Esta semana e especialmente na sexta-feira e hoje no domingo, cristão do mundo inteiro fazem algum tipo de comemoração para relembrar este evento. Em Israel, os cristãos, católicos romanos, católicos ortodoxos e protestantes, percorrem a via dolorosa realizando o mesmo caminho realizado por Jesus. Alguns, tentando repetir ao pé da letra os passos de Jesus, carregam uma cruz pesada sobre os ombros como forma de tentar sentir um pouco da dor que Jesus sentiu, ignorando o fato de que a dor sentida por Jesus, homem nenhum jamais sentiu e nem sentirá, visto que foi a dor de Deus, se rebaixando à condição humana, carregando sobre si o pecado de toda a humanidade. Por isso que mesmo que alguém percorra o caminho da via cruxis, seja até crucificado e morra agonizando na cruz, a dor que Jesus sofreu ainda é inigualável e sobre humana.

Mas apesar de toda essa comemoração que acontece no mundo inteiro, a experiência nos mostra que muitos cristãos do mundo todo ainda continuam longe do verdadeiro significado que a cruz e a ressurreição de Cristo se nos impõe. Ainda enchem o cristianismo de misticismo e tradições, dando a estes importância maior que a do próprio Cristo. Para provar isso, ontem conversando com um comerciante que se diz cristão, ele me disse que não abre seu comércio na sexta-feira da paixão porque neste dia ele não pega em dinheiro (por causa de Judas que negou a Cristo por 30 moedas de prata); e ele completou dizendo que ainda respeita esse dia. Para ele a importância maior está no evento da traição de Judas que no próprio Cristo. Para ele, cristianismo é guardar apenas um dia do ano, vivendo o restante de forma displicente e sem compromisso algum com Deus.

Para ser fiel ao nosso calendário eu deveria hoje falar de ressurreição e vida. Deveria enfatizar a vitória de Cristo sobre a morte e conseqüentemente a nossa vitória. Mas permitam-me, eu vou enfatizar a cruz, porque eu entendo que não há vitória sem cruz, não há Jerusalém sem Gólgota. A verdade é que se alguém quiser pular a fase da cruz, não vai encontrar ressurreição. Por isso nesta noite eu gostaria de falar do paradoxo da cruz. Porque a cruz é tão importante, mas tão mal compreendida e rejeitada?

Para isso vamos ao primeiro texto que lemos, o texto de Mateus 16. Jesus nos convida a tomar cada um a sua cruz. É um convite porque antes ele diz que se (condicional) alguém quiser (eu preciso querer) seguir após ele. Por isso não é uma imposição, mas um convite. Todas aquelas pessoas que estavam seguindo a Jesus, incluindo seus apóstolos, queriam algo do Mestre, e de certa forma estavam sendo discipuladas por Ele. Mas Jesus deixa claras as exigências do discipulado, negar a si mesmo e tomar a cruz. Não era somente estar onde Jesus estava, participar dos milagres, ser alimentado por Ele; fazer parte do discipulado de Jesus exigia mais do que isso, exigia cruz. Tem muita gente querendo somente milagres, ou somente querendo ser alimentada, mas fogem quando percebem que precisam carregar a cruz, vão para outro lugar onde estão oferecendo um cristianismo isento de cruz. A estes Jesus disse: me seguem somente pelo pão que as alimenta, mas não querem ter compromisso comigo.

Mas o interessante é que quando olhamos no contexto do versículo que lemos, nos 3 evangelhos que mencionam este fato, este episódio está depois da declaração de Pedro de que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e depois de Jesus predizer sua morte com todas as palavras. E por que depois? Porque somente depois da declaração de Pedro nós podemos ter a certeza de que os discípulos entenderam realmente quem Jesus era. Antes disso eram apenas cogitações e percepções equivocadas. Mas a declaração de Pedro traça uma linha divisória no evangelho. Prova disso é que somente depois da declaração de Pedro Jesus anuncia a sua morte. E sabem por quê? Porque fora de Cristo a cruz é loucura, é insanidade. Somente na pessoa de Cristo a cruz se torna benção e sinal de vida.

Vejam que paradoxo enfrentado pelos discípulos. Jesus fala de tomar a cruz, símbolo de morte, e acrescenta, quem quiser salvar a sua vida irá perdê-la e quem escolher perder sua vida vai achá-la. Como eu perco a vida querendo salvá-la e como eu ganho a vida escolhendo perdê-la? A cruz de Cristo explica, e somente na concepção da cruz de Jesus este aparente paradoxo se resolve e se torna algo real e factível.

Por isso que fora de Jesus cruz significa morte, ruína, perdição, fim, mas sob a perspectiva de Jesus e de sua obra, cruz significa vida, recomeço, alegria, libertação. Mas para que a cruz significasse tudo isso pra mim hoje, ela precisou significar para Jesus morte, dor, sujeição e despojamento.

E é por isso que nos versículos que lemos do capítulo 27, as pessoas instaram com Jesus para que Ele descesse da cruz. Em primeiro lugar podemos entender essas tentativas como um deboche, mas eu entendo que ali era a última cartada do diabo para tentar fazer com que Jesus desistisse da cruz. Ao contrário do que eu já ouvi alguém dizer, o diabo sabia muito bem que a cruz era a sua completa ruína. Ele não ficou feliz e nem fez festa no inferno como alguém já mencionou, mas ele sabia muito bem que a morte de Jesus significava que ele havia perdido para sempre. Perdeu o domínio sobre as pessoas através do pecado e perdeu na sua rebelião contra Deus. O plano de Deus que ele quis frustrar no Éden, Jesus o reconquistou através de sua morte e ressurreição. Ele queria que Jesus desistisse da cruz, primeiro através da tentação no deserto oferecendo a Jesus todos os reinos da Terra e por último na própria cruz.

Mas Jesus venceu a tentação do deserto e venceu a tentação da cruz porque sabia que a nossa salvação dependia dele e somente dele.

O diabo queria que Jesus desistisse da cruz porque ele sabe que não há vitória sem cruz, não há ressurreição sem cruz. E ele ainda hoje tenta nos fazer desistir da nossa cruz, porque ele sabe que a nossa vitória depende da cruz.

E o nosso inimigo ainda continua usando as 3 formas de tentação que sempre usou desde a criação do homem. Os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida. Até Jesus foi tentado nestes 3 níveis e conosco não é diferente. E através destes 3 níveis de tentação o mundo nos convida a abandonarmos a nossa cruz tentando nos mostrar que ela é pesada demais para carregarmos e que ele, o mundo, tem a solução para esse peso.

A concupiscência da carne, ou os desejos da carne, apelam para as minhas necessidades mais básicas e urgentes. Não foi assim com Cristo? Ele estava com fome e o inimigo mostrou que ele não precisava passar por aquilo já que era Deus. Por que o criador de todas as coisas precisava passar fome? Mas Jesus precisava ser tentado como homem, padecer necessidades como homem, viver como homem, mas sem pecado, para que o seu sacrifício fosse perfeito e perfeitamente eficaz.

Os nossos desejos urgentes muitas vezes nos têm tentado a abandonar a nossa cruz e nessa tentativa, nos afastar de nossa vitória.

Quando olho os grandes homens do passado e olho para minha vida sou obrigado a admitir quão longe eu estou da vida piedosa que eles levavam. Estou lendo a biografia de João Nelson Hyde. Ele era conhecido como o homem que orava, tal era a devoção daquele homem em estar aos pés de Cristo, buscando orientação para todas as circunstâncias de sua vida. E como Deus abençoou seu ministério em razão dessa devoção.

Talvez para muitos de nós hoje a oração seja uma cruz que temos de carregar. E confesso que orar não é muito fácil, principalmente para aqueles que não têm essa prática constante em sua vida. E o nosso inimigo, se aproveitando dessa dificuldade, nos convida a abandonarmos nossa cruz. Pra quê ficar horas preciosas em oração quando temos tantos afazeres mais “importantes”? Pra quê ficar tanto tempo orando, se Deus é onisciente e lhe ouve com apenas uma palavra? Isto é verdade, mas há um mistério na oração que nós não podemos entender, mas que sabemos que Deus opera quando há muita intercessão. A história nos mostra isso e a Bíblia nos manda orar sem cessar.

Mas os desejos urgentes de nossa vida tumultuada têm nos tirado momentos preciosos que poderíamos estar aos pés do Senhor e assim vislumbrar as maravilhas que o Senhor operaria em nossas vidas.

O que temos colocado de urgente em nossas vidas que tem ocupado o lugar da cruz? Quais as prioridades que temos para nossa vida? É fácil saber e cada um deve fazer as suas próprias considerações. As prioridades de minha vida são materiais, para o meu próprio benefício, ou elas são espirituais vislumbrando o reino de Deus? Responda com honestidade e você saberá se está carregando a sua cruz ou se a abandonou no caminho.

Seja qual for a sua conclusão, saiba que não há vitória sem cruz. Não há Jerusalém sem Gólgota. Assim como a semente precisa morrer para germinar; assim como Jesus precisou morrer para ressuscitar, nós precisamos morrer para nós mesmos para alcançarmos vitória e bênçãos da parte de Deus. Negue-se a si mesmo é a exigência da cruz. Por que eu preciso negar-me antes de tomar a minha cruz? Porque eu não posso carregar a cruz contrariado, de má vontade. Jesus não quer ninguém contrariado em seu reino, ninguém fazendo por obrigação, mas sem vontade alguma. Mas quando eu entendo que antes de tomar a cruz eu preciso negar a mim mesmo, aí a cruz deixa de ser um peso insuportável e se torna um privilégio. Paulo pensava e agia assim. Para ele as prisões, os sofrimentos, os açoites, nada mais eram que conseqüência do seu apostolado, porque antes ele já havia negado a si mesmo.

Os desejos dos olhos também nos convidam a largarmos nossa cruz e seguirmos na mesma direção que o mundo segue. Os desejos dos olhos são aqueles que não são urgentes, mas não saem de nossa mente como planos para um futuro bem próximo. Eu costumo dizer que vivemos nesta Terra como se Cristo nunca fosse voltar. Nossos templos são suntuosos, majestosos, construídos para durarem para sempre. Até os túmulos que construímos de nossos entes que se foram são feitos para perdurarem pela eternidade. Na maioria deles você vê escrito: perpétua. Vivemos o dia de hoje preocupados com o dia de amanhã, de depois de amanhã, da semana que vem, daqui a 10 anos e nos esquecemos de que Jesus nos mandou viver dia após dia, nos esquecemos que carregar a cruz também é confiar em Jesus de forma irrestrita e completa. Mas sejamos sinceros, não nos sentimos muito mais confortáveis quando nossa conta no banco está bem cheia? Não nos sentimos muito mais seguros quando a doença não atacou nossa família? Não nos sentimos muito mais tranqüilos quando sabemos que temos um ótimo plano de saúde?

Não há vitória sem cruz, e não há cruz sem confiança em Jesus, porque longe de Cristo a cruz é somente uma loucura, uma insanidade, um desvario. Junto de Jesus a cruz faz sentido e tem poder para transformar.

E não há como escapar dessa verdade. Quando não confio plenamente em Deus, na verdade estou deixando a cruz de lado e resolvendo seguir meus próprios caminhos, de acordo com minhas possibilidades humanas e restritas. Somente depois que Pedro declarou quem era Jesus, o Cristo, o Emanuel, o Filho de Deus, somente depois disso foi que Jesus disse: então nega-te a ti mesmo e tome a tua cruz. O entendimento e a confiança em quem Jesus é, é a base do discipulado, é a exigência para aquele que quer seguir o mestre.

O que o mundo tem lhe oferecido para que você abandone a sua cruz? É a soberba da vida? São os desejos de possuir, de ter, de ser respeitado a qualquer custo?

Sejam quais forem os motivos ou os oferecimentos que o mundo tem feito, saiba que a cruz é imperativa para aquele que quer seguir os passos do mestre.

Quando eu não entendo dessa forma, então eu procuro um “evangelho” mais fácil, aquele que me afasta da cruz e me faz ignorar as palavras de Jesus. E se você desejar, está cheio de gente por aí prometendo o céu aqui na Terra, dizendo que para ser crente você não precisa sofrer, não precisa negar-se porque Deus conhece suas fraquezas e as entende; mas daí você precisa riscar Mateus 16 da sua Bíblia e fingir que esse texto não existe, porque não dá pra interpretar de outra forma esse texto. Quer ser discípulo de Jesus? Negue-se a si mesmo e cada um tome a sua cruz.

Por isso que é muito mais fácil guardar a sexta-feira da paixão do que negar-se a si mesmo. Quem guarda a sexta-feira, guarda apenas um dia dos 365 do ano, mas quem resolve negar-se a si mesmo, tem de fazê-lo durante todos os dias do ano, todas as horas do dia, todos os minutos da hora.

Por isso que é mais fácil obedecer a rituais do que negar a mim mesmo. Quando eu cumpro rituais eu o faço somente naquele momento e nos outros momentos eu vivo como quero, mas quando eu resolvo negar a mim mesmo, eu preciso observar minha conduta todos os momentos de minha vida. Para cumprir rituais eu não preciso mudar de vida e nem de atitude, mas para negar a mim mesmo eu preciso de conversão, de comprometimento, de sinceridade nas minhas atitudes.

Por isso que hoje, ao relembrarmos o que Jesus nos fez quando entregou a sua vida na cruz do Calvário perdoando nossos pecados, nós precisamos inevitavelmente nos lembrar das implicações dessa salvação que nos foi outorgada. Há uma dificuldade muito grande naquele que se diz salvo, mas que não quer tomar a sua cruz, que não quer cumprir as exigências do discipulado.

Não se engane, o mundo vai continuar oferecendo uma vida sem cruz. Aliás, aparentemente, a vida que o mundo oferece é uma vida muito mais atrativa, se não fosse assim, seriam poucos os que desistiriam do evangelho e se voltariam para o mundo. Aparentemente, viver de acordo com os padrões e critérios do mundo é muito mais cômodo, você não contraria ninguém, você vive como vive a maioria, você desfruta da vida e de tudo que ela tem a oferecer sem precisar negligenciar nada. Você vive uma vida de forma intensa como dizem por aí. O que o mundo e o nosso inimigo escondem é que por trás e no fim desse modo de vida perfeito, há destruição e morte, há dor e decepção, há choro e tristeza.

E não é somente o mundo que vai nos pressionar a viver sem cruz. O evangelho do século XXI está se tornando em um evangelho antropocêntrico, onde o homem tem a primazia e tudo no universo acontece para e em favor do homem. Tiraram Deus do centro e colocaram o ser humano, e Deus trabalhando para alegrar e satisfazer esse ser humano que se cansou de viver para servir a Deus e agora decidiu que quer ser servido.

A partir de agora, quem quiser viver o evangelho bíblico e genuíno vai ter que lutar contra tudo e todos. Mas não se esqueça das palavras de Jesus para seus discípulos e para nós, crentes do século XXI que decidimos que não vamos ceder às pressões: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

Não ceda às exigências do presente século; não desça da cruz; não abandone a sua cruz no meio do caminho para pegar um atalho que aparentemente lhe oferece uma melhor opção. Prefira a cruz, porque depois dela há ressurreição e vida, depois da cruz há vitória e festa.

Que Deus nos abençoe!

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