terça-feira, 16 de junho de 2015

TEMPO DE SE CALAR

A Bíblia fala que há um tempo para cada coisa. Mas ela não diz quando agir de determinada maneira diante de tal situação. Aparentemente, de acordo com o texto, o pregador nos deixou livres para escolher, usando para isso alguma sabedoria. Porque é fato que, escolhendo bem ou mal, vamos colher os frutos desta escolha.
Mas a verdade é que estou vivendo um tempo de quietude de alma e de mente. É meu tempo de se calar.
Diante de tantas transformações que tem vivido nosso mundo e diante de tanta informação midiática a que estamos expostos todos os dias, senti de um tempo pra cá uma certa canseira intelectiva. Acho que não estou emburrecendo não, apenas não tenho mais a mesma disposição para algumas elucubrações e tantas outras discussões estéreis e infindáveis.
Muita coisa perdeu o sentido há algum tempo, e dentre elas a necessidade de convencimento. Há muito deixei de tentar convencer quem quer que seja do que quer que seja.
Se perguntam minha opinião, respondo, mas não quero que ninguém me siga e tampouco estou interessado que concordem comigo.
Cansei de ver e ler tanta opinião por aí, gente se desgastando e se digladiando mutuamente, cada um com a sua "verdade", cada qual tentando convencer o outro de que o seu pensamento é que é o bom, o certo e o que deve ser seguido por todos.
Minha mente precisava de paz e para isso deixei até de ver TV. Aconselhado por um amigo, entendi que meu campo de ação diante de todas as mazelas que são vendidas pela telinha era muito pequeno quando não ausente, e que assistindo todas aqueles desgraças, o único prejudicado era eu mesmo.
E nesse marasmo mental, também deixei de escrever neste espaço. As ideias continuam, mas o ânimo deu um tempo. Talvez volte um dia, mas também isso não me preocupa. Se voltar, quero que seja de livre vontade, sem cobranças, sem pressa e sem precisar provar nada a ninguém.
Acho que tem que ser assim mesmo, porque já que o pregador não nos deu uma tabelinha de como agir com o tempo de cada coisa, resta-nos seguir nossa intuição e nossa disposição, calando no momento certo até que o próximo tempo venha trazer novas mudanças.

sábado, 20 de setembro de 2014

PENSAMENTO DO DIA

O perdão talvez seja um processo de "esquecimento" natural que acontece quando você decide, no momento da raiva, escolher não se vingar. E essa escolha se chama misericórdia. E esse perdão não é para o bem do outro, mas para seu próprio bem.

sábado, 16 de agosto de 2014

É ASSIM QUE VEJO DEUS

"Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus.
Porque está escrito: " ‘Por mim mesmo jurei’, diz o Senhor, ‘diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua confessará que sou Deus’ ".
Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus.
Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão." Romanos 14:10-13

Esta semana conversei com uma pessoa que tentou me convencer de que Deus vai um dia me convencer de que eu precisarei voltar para a "igreja" institucionalizada, porque senão estarei irremediavelmente "desviado". Respondi que estou plenamente convencido de que, mesmo fora da instituição, continuo com Deus, Cristo é o meu Senhor e que estou tão salvo (seja lá o que esta pessoa entenda por salvação) quanto em qualquer outra época.

Este tipo de comentário me entristece. Em primeiro lugar porque esta pessoa não entendeu quase nada do evangelho da graça de Deus. Para esta pessoa a graça ainda não é suficiente visto que preciso estar atrelado a alguma instituição. Para ela, além da graça não ser suficiente, também não é eficaz, visto que posso perdê-la ao me ausentar da instituição.
O segundo motivo da minha tristeza é generalizado, porque assim como esta pessoa, muitas outras que estão "dentro" das instituições continuam julgando aqueles que estão "fora" delas como se este fosse o critério para se estar perto de Deus ou não.
Eu aprendi, infelizmente de forma um tanto tardia, que a única coisa que posso e devo fazer é tentar seguir os ensinamentos de Jesus, tentar viver da forma como ele viveu e pediu para que vivêssemos. Tentar, ao longo da minha vida, ajudar o maior número de pessoas possível, e assim, estarei cumprindo a lei de Deus. E o que passar disso é invenção da religião e pode ser perfeitamente descartado ou simplesmente ser vivido da forma que agradar, levando em conta culturas ou costumes.

Gosto de ver Deus em pequenos atos de amor na vida de pessoas simples e anônimas. Gosto de ver Deus em palavras singelas mas de grande impacto, vindas de pessoas que não tiveram o privilégio de se educarem. Gosto de ver Deus assim, na vida, no cotidiano, agindo silenciosa mas poderosamente, transformando pessoas "doentes" e cansadas, em gente do bem, alegres e gratas por tudo que têm, mesmo que o tudo seja muito pouco.
É assim que vejo Deus e é assim que tento viver minha espiritualidade.
Não julgo os que estão "dentro", mas por favor, não me julgue por estar aqui "fora".

quinta-feira, 27 de março de 2014

CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTO

"Então o sumo sacerdote perguntou a Estêvão: São verdadeiras estas acusações?...
...Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo!...
...Mas eles taparam os ouvidos e, gritando bem alto, lançaram-se todos juntos contra ele, arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo..." Atos dos Apóstolos 7

Estevão havia sido acusado de falar contra o templo e contra a lei, ou contra Moisés e contra Deus. Eles não estavam muito certos porque afinal as testemunhas eram falsas e se contradiziam um pouco.
E ele começa sua defesa no capítulo 7 e termina o capítulo sendo apedrejado e morto.
Em sua defesa ele mostra que a história do judaísmo não havia sido um mar de rosas como muitos pensavam. Abrão fazia parte de um povo pagão e politeísta, mas mesmo assim é neste lugar pouco "santo" que Deus o chama. Os filhos de Jacó, bisnetos do grande Abraão, tiveram inveja do irmão José e o venderam como escravo ao Egito. Sim, os 11 patriarcas dos quais todos os judeus descendiam foram escravagistas do próprio irmão.
Mas mesmo lá no Egito, outra terra pagã, Deus cuida de José e usa esta mesma nação pagã para salvar a vida da pequena família hebreia, que passava fome.
O extraordinário Moisés, representante da lei que os judeus veneravam, comete um assassinato e por isso precisa fugir.
Mas mesmo assim, Deus o escolhe para livrar seu povo da escravidão, e o mesmo hebreu que o acusara de assassinato, que questionara sua liderança, agora precisa admitir seu erro e seu mal julgamento.
No deserto, o povo hebreu julga mal de novo e pede para o grande Arão, sumo sacerdote, encarregado de interceder a Deus pelo povo, fazer um bezerro de ouro para que pudessem adorar; o povo ainda carregava a idolatria em seu coração.
Davi, homem segundo o coração de Deus em sua sinceridade, é impedido de construir o templo porque tinha as mãos carregadas de sangue, mas seu filho o constrói, mesmo sabendo que esta não era a vontade de Deus.
Erro em cima de erro, maus julgamentos, idolatria, rebeldia. Estevão termina dizendo que os seus acusadores estão tão equivocados como estiveram muitas vezes as pessoas mais célebres do judaísmo.
É difícil ouvir verdades incontestáveis. Precisa-se ter muita humildade para aceitar o fato de que cometemos muitos erros no passado. Há que se ter coragem para ouvir, aceitar e dar meia volta e tentar arrumar as coisas. Isso geralmente leva gerações para acontecer.
Os religiosos não aceitaram ouvir seus tropeços e calaram a boca de Estevão.
Hoje não é diferente. Aqueles que se atrevem a falar contra o sistema religioso imposto são tidos como hereges e rebeldes, e logo têm sua voz calada pelo poder.
Na maioria das vezes não matam fisicamente, mas matam moralmente e de forma caluniosa. Abafam a voz daqueles que tentam mostrar por "a" mais "b" que tem alguma coisa muito errada acontecendo dentro deste universo chamado "igreja" institucionalizada.
Ontem, comentando a respeito, dissemos: será que teríamos coragem de fazer o que Estevão fez? Será que correríamos o risco de termos nossa reputação assassinada pelo sistema?
E a resposta foi: Sim, se estivermos cheios do Espírito Santo, porque é Ele quem nos encoraja a falarmos a verdade.
Enche-nos ó Deus do teu Espírito, esta é a minha oração.

sexta-feira, 14 de março de 2014

CONVIVENDO COM O DIFERENTE

"Naqueles dias, crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento. Por isso os Doze reuniram todos os discípulos e disseram: "Não é certo negligenciarmos o ministério da palavra de Deus, a fim de servir às mesas. Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra". Tal proposta agradou a todos. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia. Apresentaram esses homens aos apóstolos, os quais oraram e lhes impuseram as mãos." Atos 6:1-6

Lá vou eu com meu coração peludo novamente tentar entender o texto.
Mas me respondam: Por que somente as viúvas dos judeus de fala grega estavam sendo esquecidas na distribuição do pão? Por que os apóstolos pedem para que eles mesmos resolvam o problema (escolham entre vocês)? Por que as pessoas escolhidas foram somente homens com nomes gregos?
A minha resposta é simples. Tratamento diferenciado já nos primeiros dias da igreja.
Um pouco de história para atualizar. Os judeus helenistas, ou seja, os de fala e costumes gregos haviam deixado a palestina por inúmeras razões, desde as vezes em que Israel fora levado como escravo por outras nações, até por questões comerciais e políticas. O fato é que, ao conviver com outros povos, acabou absorvendo seus costumes de alguma forma, e se tornando mais "abertos" ao sopro do mundo, diferentes dos seus irmãos que permaneceram na Palestina. Isto obviamente gerou desde sempre, uma certa rivalidade entre os dois grupos, que ao meu ver está evidente no texto em questão.
Já vi muito teólogo influente tentando salvar a pele dos judeus de fala hebraica (ou aramaica), onde estavam incluídos os doze apóstolos, querendo dizer que este problema não foi proposital. Não vejo razão para isso, porque acho que Lucas quis exatamente contar a história do jeito que ela foi, sem diminuir nem pôr, mas sendo o mais honesto possível com os acontecimentos, mesmo os mais desagradáveis.
Não há muito o que especular no texto. À medida que os grupos vão crescendo, vão aparecendo os problemas de relacionamento e consequentemente vamos expondo nossas fragilidades e nossos preconceitos. É fácil conviver com aqueles que são iguais, que pensam igual e sempre concordam conosco. Mas neste caso não há crescimento de nenhum dos lados.
É difícil conviver com pessoas que pensam diferente, que falam outra língua ou que têm coragem de nos interpelar porque não concordam com nossa posição. Neste caso, se houver discussão madura, haverá crescimento de ambos os lados do embate.
O evangelho de Jesus veio exatamente unir os diferentes. Colocar na mesma mesa da comunhão pessoas que pensam e reagem de forma diferente, e mostrar que aquilo que nos une é maior que aquilo que nos divide. O evangelho de Jesus veio provar que é possível conviver com conflitos de opinião, mas sempre tendo como ponto de elo o amor a Deus e o respeito ao outro.
Por isso, ao estudar este texto fiz-me uma pergunta: Como Jesus resolveria o conflito do problema da distribuição dos pães?
Veio-me à mente Jesus, calmamente se levantando, pegando a bandeja de comida nas mãos e servindo a todos sem distinção. Depois Jesus olha para as pessoas e pergunta: Vocês conseguem fazer isso? Se sim, então nós não temos mais um problema.